Coreia do Norte: por dentro de uma zona de guerra

Este é o segundo capítulo de uma série de reportagens especiais sobre a expedição do escritor Marcos DeLacumbre Holtz ao reino entrincheirado de Kim Jong-un. Se você não leu o primeiro, clique aqui.

Quando a tábua é o cu do outro

– E à direita temos a Igreja Cristã Russa.

Virei-me para o lado e, por segundos arrastados pela janela, observei a farsa edificada em arquitetura sacra discreta, ornamentada pela ferrugem de cruzes sem um corpo crucificado em chagas. Não eram nem 8 da matina nas ruas vazias de Pyongyang e a mentira já palitava meus dentes. Ainda podia sentir o gosto das batatas, do porco e dos ovos do café da manhã. Estava dentro do ônibus azul da companhia estatal de turismo norte-coreana. Cruzava a cidade com mais 15 estrangeiros. À proa, um braço magro e folgado nas mangas de um paletó azul segurava o microfone. Senhor “Quak”, ou algo parecido. Falava um inglês ruim que soava chiado do pequeno autofalante sobre minha cabeça. Eu podia apostar que ele não conhecia o pároco daquele santuário, mas se eu perguntasse pelo nome, então tiraria uns expatriados da cartola: um Boris, um Mikhail, um Vladmir, um Nicolai ou qualquer coisa terminada em “ev” pra me tapear.

Decidi. A partir daquele momento o espertinho do senhor Quak – jovem de rosto esquálido, cabelo fino escorrido na testa e óculos com armação intelectual – seria o alvo de minhas incômodas investidas.

Senhor Quak vinha acompanhado por mais dois funcionários do regime. Uma mulher de sobrenome “Kim” – rosto pálido e magro, penteado à senhora dos anos 80 e roupa social; e um outro sem nome que decidi chamar de “Cheng”. Embora trabalhassem em equipe na vigilância e doutrinação dos gringos, suas especialidades latejavam. Senhor Quak fazia o papel de guia político, manifestando devoção lavada e cristalina ao famoso trio de deidades mortais da Coreia do Norte. A senhora Kim vinha mais habilidosa no inglês, trazia o habitual fanatismo aos líderes e informações históricas dos locais visitados. Por fim, o menos importante, Cheng: se comunicava por gestos e sorrisos amarelos; se mantinha ávido escoltando o grupo pra que ninguém se afastasse 5 metros de seu raio; se sentava sempre de sentinela na última poltrona do ônibus. Ficava me encarando. Seu personagem era uma espécie de segurança de um metro e meio, aperto de mão frouxo e corte de cabelo estilo Kim Jong-un.

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O portal de saída da capital, na estrada que corta o País sentido fronteira sul, exibe um arco branco formado por duas mulheres. É o monumento da reunificação simbolizado por uma norte-coreana e uma sul-coreana, unidas, segurando uma esfera com o mapa da península da discórdia.

– O nosso desejo aqui no norte é a reunificação, o desejo do nosso líder é a reunificação. A Coreia é uma só – disse Senhor Quak enquanto estrangeiros despreocupados posavam para fotos.

Aproximei-me de Quak com ar desinteressado e mãos nos bolsos.

– Então, Senhor Quak, se essa reunificação realmente acontecer, quem será o líder?

Visivelmente golpeado, Quak tentava encontrar palavras gaguejando em seu inglês precário. Senhora Kim, vendo o companheiro em apuros, tratou de salvá-lo.

– Muito bem, pessoal, vamos voltar ao ônibus – gritou a todos. Quak rapidamente reforçou em coro deixando-me a ver navios. Eu poderia estar à deriva, incomunicável e refém dentro de seu país, mas minhas provocações o fariam naufragar pelos próximos dias.

Àquela altura Quak, Kim e Cheng já sabiam quem era o filho da puta a ser evitado no grupo. Senti a marcação um pouco mais pesada em mim. Estava dando certo e eu não me importava.

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A rodovia para Kaesong, última cidade antes do deserto bélico entre as duas Coreias, é duplicada e péssima. Ainda que poucos carros trafeguem por ali; ainda que grupos de trabalhadores procedam a recapagem diária metendo a cara na queima de asfalto em tonéis de lata, é um caminho bastante trêmulo. Não há postos de gasolina nos quase 180 quilômetros de viagem. A verdade é que, vindo da fronteira com a China, cruzando até o sul, Pyongyang faz as vezes de oásis. Os ermitões seguem tentando plantar algo nos campos, se concentram em bandos de dez para fazer trabalhos de três ou quatro, carpindo o mato, arando a roça, tapando buracos, fumando palheiros. Não parece ter muito o que fazer por essas bandas. É uma nação rural. A Coreia do Norte é uma grande fazenda e Pyongyang a suntuosa casa do fazendeiro.

O trajeto não alterna muito em paisagem e personagens. Homens e mulheres pedalando em roupas sociais, rostos tristes e surpresos no acostamento admirando o único ônibus da semana passar; algumas vilas, raras cidades, onde estão os 25 milhões de habitantes desse lugar? Militares, fuzis e seus postos de controle, soldados magros em feições infantis. Onde estão os músculos poderosos capazes de trucidar o exército inimigo? Tudo é muito frágil e mal nutrido. Se a Coreia do Norte fosse um som, seria o de uma engrenagem enferrujada ou de um estômago perto da hora do almoço.

10-1

É caro pra entrar na Coreia do Norte. É turismo puro operado por agência. É um all inclusive sem cruzeiro, navegando em mazelas, mistérios e idolatria megalomaníaca. Portanto, eu era um jornalista gonzo latino-americano cercado por uma maioria estraçalhadora de europeus e seus bolsos recheados de euros. Parte deles apenas curiosos, a outra metade portadores da síndrome da esquerda apaixonante indo conferir de perto um dos últimos resquícios da falência de seu delírio ideológico. Românticos de esquerda se masturbando pras vítimas de um regime de magreza explícita, nua e crua.

– Veja, eles vivem bem aqui – disse um alemão com a testa colada ao vidro.

É, meu amigo, quando a tábua é o cu do outro fica fácil pregar romantismo. Quando a mala de rodinhas da Victorinox ostenta as fitas de bagagem com escalas em Paris, Berlim e Milão, presas à alça, você logo vê quem realmente entende de “vida boa”. Certamente os norte-coreanos sofrem. Mas talvez eles não saibam discernir isso. Digo, sofrem, mas não sabem. E a falta de conhecimento é uma merda. É uma merda que mata. No caso da Coreia do Norte e dos coreanos, é uma merda assintomática. Sofro sem saber que sofro, porque não tenho como saber que sofro, porque há apenas um gênero musical por aqui, e é nacionalista, e as canções bradam a todo momento “o meu País é o melhor”. Já faz bem mais de meio século que é assim. As gerações que poderiam socar a mesa, ou já foram mortas, ou já estão velhas demais pra isso. É impossível saber que se sofre quando é assim sem parâmetro; é impossível saber o que é sofrimento tomando o suco gaseificado dos vinhedos da França ou quando se dirige um Porsche numa Autobahn.

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O “Paralelo 38” é a linha imaginária que divide as duas Coreias. Panmunjon é a “cidade fantasma” ao sul da Coreia do Norte e ao norte da Coreia do Sul. É o local onde o armistício de 1953 foi assinado para suspender a guerra. Isso significa que qualquer movimento brusco pode explodir o conflito que perdura aceso ao lado de um tanque de gasolina por quase 70 anos. Essa terra de ninguém cujo a capital poderia se chamar “Contradição” é a conhecida “Zona Desmilitarizada”, e talvez a Zona Desmilitarizada mais armada do mundo. Essa demarcação rasga a península de fora a fora por 250 quilômetros e quatro de largura. É preciso ter cuidado ao caminhar nesse campo minado.

Observava o entra e sai de veículos militares pelo portão do complexo cercado por muralhas antitanque. Fotografava alguns guardas de maneira clandestina e discreta. Os outros estrangeiros disputavam pôsteres de guerra e souvenires caros na tenda turística. Tomava um suco de manga enquanto via os soldados marchando com as pernas nas alturas. Pro lado de lá das grades, um perigoso caminho de esperança. Estava prestes a experimentar o que foi a fuga do último desertor do Exército Norte-coreano uns meses atrás. O recruta da portaria deslizou o bloqueio com violência. A entrada estava autorizada.

CAPA

No dia 13 de novembro de 2017 um desertor norte-coreano apostou a própria vida numa fuga épica. Ele dirigiu em alta velocidade, com suor escorrendo das ventas e o olhar atordoado, fugia de um passado predador. Não teve tempo de admirar as belas árvores desse bosque. Mas quem quer apreciar árvores quando tá fodido? A metros do marco fronteiriço ele enguiçou o veículo militar numa valeta. Perto dali seus ex-companheiros já se arrumavam em prontidão para fuzila-lo sem dó. O “traidor”, desarmado, com a farda amarrotada e cambaleante, correu para abraçar o sul. Foram 40 disparos de pistola e AK-47 em direção ao alvo e, por consequência de sua rota, a Coreia do Sul. Era o suficiente para despertar a guerra iniciada em 1950. Seis tiros perfuraram o corpo do homem que agonizava deitado no lado sulista até o anoitecer. Soldados do sul então rastejaram para o resgate. Horas depois ele respirava entubado de aparelhos num hospital. Veio a coletiva médica:

– Nunca vi nada igual em minha carreira na medicina – relatou o doutor – este homem a quem chamam de desertor tinha, além das lombrigas, uma infestação de parasitas em seu corpo, um deles com mais de 27 centímetros.

05

Da sacada do Pavilhão de Panmun, o último casarão da Coreia do Norte, notei a bandeira sul-coreana tremulando no lado esquerdo do horizonte; do outro a norte-coreana sobre uma aldeia de cores mortas e prédios fantasmagóricos. O edifício da “Paz” à minha frente, e logo embaixo as três casinhas azuis divididas ao meio na borda mais tensa do mundo. Soldados em vigília séria e imóvel. Logo fui embora dali traçando o mesmo caminho, em direção às cercas eletrificadas e rolos de arame farpado que coroavam os paredões de pedra. Recrutas rasos suavam a camisa cavando trincheiras, fazendo a manutenção de uma guerra entre semelhantes. É uma terra de pessoas que se amam e se xingam numa mesma língua e que comem as mesmas comidas típicas; de gente que viu seus parentes evaporarem como quem perde a mercadoria na alfândega do aeroporto, coreanos apartados por sistemas e ânsias de poder diferentes e só isso. A guerra, no fim das contas, nasce e morre banal. Pelo que mesmo eles estão brigando? Por um líder? Um sistema? Uma doutrina? Por essa coisa doentia que lhes roubou a alma e impôs um único direito: o de não ter coração. Há uma fístula no peito de cada norte-coreano.

Perto dali, num tipo de parque escondido, Senhor Quak e sua turma nos apresentavam um museu simples e pouco interessante, não fosse por uma porta misteriosa nos fundos do terreno. O espaço escondia uma estátua do Buda. Sim, Sidarta Gautama, refugiado no País onde a igreja cristã é de isopor e as bíblias estão proibidas; na nação onde o culto à personalidade é fé e a família Kim triunfa soberana.

– É livre? – não demorei a perguntar.

– O que? – rebateu Quak com cara de bobo.

– Religião, porra.

– Claro – ele respondeu.

– Então pro governo tá tudo bem ser budista?

– Sim.

– Que legal. Mas onde estão os templos? E os monges enrolados em túnicas cor de açafrão e caminhando enquanto contam suas japamalas? – avancei.

– Sabe, aqui na Ásia os templos ficam nas montanhas – falou deslavado.

– Hum… – aquilo me bastava.

Depois disso o filho da puta nos levou para almoçar perto de uma larga avenida aladeirada. Duas estatuas de bronze no topo, os dois “budas” que não estavam escondidos: Kim Il-sung e Kim Jong-il. No cardápio uma rodada de petiscos tradicionais com manjubinhas fritas e feias, porco escasso, kimchi e outros vegetais. Era o banquete do “regime do regime”. Havia também uma sopa como opção à parte. Senhora Kim se aproximou e perguntou quantas pessoas gostariam do prato. Fui o único a levantar a mão. A comitiva de europeus me olhou com cara de nojo. Cinco minutos depois lá estava minha sopa de cachorro fumegando de uma tigela acobreada direto na minha cara.

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– E aí, é bom – perguntei à senhora Kim chacoalhando a colher.

– Eu não como – ela disse.

– Então por que eu deveria?

– Senhor, eu não como porque quando era criança eu vi como matavam os cachorros – respondeu.

– E como era? – prossegui.

– Horrível. Eles colocavam em sacos e davam pauladas. Ou então utilizavam cordas para enforcá-los.

– E hoje, como é? Isso aqui é cão da rua?

– Não, agora existem fazendas que criam raças especiais para o consumo.

– Tudo bem, com licença – e fui direto à sopa.

Era bonita. Cores atraentes. Cheirava bem. Os temperos boiavam ao redor das carnes desfiadas e bastante magras. Afundei a colher e provei o líquido. Estava bom. Todos à mesa um pouco desconfortáveis, disparando o olhar às minhas colheradas. Desfiei um belo chumaço da carne, molhei um pouco no caldo, ergui a cabeça e percebi que o alemão do “eles vivem bem aqui” me olhava com asco em seus olhos azuis. Permaneci segurando aquela farta porção de carne de estimação ocidental na colher e me dirigi ao cara.

– Hey, amigo. Quer um pouco? Está bem apetitosa.

– Não, não, muito obrigado – ele respondeu com certo nervosismo.

– É uma iguaria fantástica, eles vivem muito bem aqui, não acha? – ironizei.

Havia silêncio à mesa. Silêncio e cachorro.

– AU AU! – lati duas vezes antes de abocanhar aquela generosa colher – ninguém achou graça.

Parecia um funeral animal. Algo pouco inteligente. Todos estavam comendo peixe e porco. Eu podia imaginar os motivos que levaram essa nação degolada a comer cachorros. Eu precisava respeitá-los, e o fiz comendo quase todo o pote. Isso não me tornava um monstro. Mas se eu acreditasse que os norte-coreanos vivem bem, isso talvez me tornasse um monstro.

Continua no próximo capítulo.

     *Marcos DeLacumbre Holtz é escritor e jornalista gonzo. Ele aceitou o convite da INVICTUS Tactical & Outdoor para viajar sozinho à Coreia do Norte em meio à tensão de guerra x paz.  

Mais fotos:

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9 comentários sobre “Coreia do Norte: por dentro de uma zona de guerra

  1. Ainda estou com o estômago embrulhado, tentando fazer a digestão de tudo que li. Adorei ler e perceber este local através do teu olhar.
    Muito bom!

  2. Uau!!!!! Impecável! A não ser pelos pobres cachorrinhos. É triste mas infelizmente uma realidade brutal para qualquer ser humano. Estou adorando conhecer a Coreia através dos seus olhos.

  3. Obrigado por passar a tua experiência.
    Uma pena q a população desse país passe por isso.
    E imaginar q possuem vizinhos com a liberdade q mtos deles nem chegam a sonhar.

  4. Parabéns… Excelente texto!!Adoro sua narrativa, com ela posso até “ver” sua cara, ao fazer as perguntas capsiosas ao sr Quak…rsrs com certeza é a mesma com a qual “latiu”para o alemão!!

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