A Coreia do Norte muito além do jornalismo engessado

Este é o primeiro capítulo de uma série de reportagens especiais sobre a expedição do escritor Marcos DeLacumbre Holtz ao reino entrincheirado de Kim Jong-un.

01

RESPIRANDO DEBAIXO D’ÁGUA

É como apneia. Lembro-me da última vez que tomei ar, foi hoje cedo à margem chinesa do Rio Yalu. Olhava para um horizonte nebuloso, taciturno e misterioso do lado de lá: Coreia do Norte. Estava escorado no parapeito da metade de uma ponte ferroviária antiga transformada em mirante. Apontando minha futura direção, pilastras de concreto brotavam da água turva como resquícios de um bombardeio que ainda demarca a separação de dois mundos num mesmo continente, num mesmo planeta; apartando semelhantes, sonhos de liberdade; a realidade e o delírio. Havia uma ponte de ferro intacta à esquerda e no meu bolso um bilhete de trem para Pyongyang. Respirei fundo e agora estou aqui debruçado à janela do meu quarto, fumando um charuto à meia-noite. Ilhado pelo Rio Taeddong, no 38º andar do Hotel Yanggakdo. Deixo a fumaça densa bailar na minha boca enquanto observo as luzes mortas da capital norte-coreana lá embaixo; raciono meu oxigênio para sobreviver a uma semana colecionando as memórias da asfixia eterna.

Estação Ferroviária de Pequim,
11 de abril de 18.
17h27min. 

Na estação de trem que é palco da maior migração do mundo durante o feriado de Ano Novo, é compreensível que, mesmo em “dias normais”, as coisas não escapem do tumulto. Naquela quarta-feira corriqueira em um território com mais de 1,4 bilhão de habitantes, pessoas se cruzavam como flechas disparadas de um lado ao outro numa guerra tribal sem pontaria. Todos os portões de embarque cuspiam filas que se arrastavam pelos saguões de espera entre gritaria, bagagens e chineses ansiosos mastigando guloseimas. Todos, menos o portão que me escancarava os vagões do K27, o expresso da madrugada com destino a Dandong, a fronteira da China com Sinuiju, Coreia do Norte.

Os poucos norte-coreanos que possuem autorização para deixar o País e, por consequência, têm passaportes, trazem na lapela de suas roupas sociais a imagem dos líderes finados. O “Grande Líder”, fundador da nação e eterno presidente, Kim Il-sung; e seu filho, o “Querido Líder”, Kim Jong-il. Ambos sorridentes e de rostos rechonchudos sobre uma flâmula vermelha. Além disso, trazem também tudo o que podem do mundo exterior, com suas grandes sacolas visivelmente abarrotadas. Carregam tralhas como sacoleiros bem vestidos, feito vítimas de um incêndio agarradas ao que conseguiram salvar antes das chamas consumirem a casa.

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A noite virava madrugada enquanto meu estômago se retorcia com a narrativa impressa nas páginas de “Fuga do Campo 14”. A história de Shin Dong-hyuk. O norte-coreano que nasceu, cresceu e fugiu de um campo de trabalhos forçados em seu próprio país. Ele testemunhou o assassinato da mãe e estupros; foi coagido a delatar outros prisioneiros e seus pais; comeu ratazanas e garimpou restos de milho em merda animal como complemento alimentar. Isso até onde li. Antes de jogar o livro na lixeira para invadir o solo desconhecido e, até onde se sabia, hostil de Kim Jong-un. De manhã estava excitado para ir além da linha imaginária. Perto das 10 horas eu enfim cruzava o Rio Yalu puxado por uma locomotiva rangente e de baixíssima velocidade. Soldados de farda marrom circulavam nos pátios das construções à encosta fluvial. Um parque de diversões enferrujado e carcomido pelo mato exalava ares de cidade fantasma ou de evasão em catástrofe nuclear; personagens infantis de um tipo Walt Disney local disparavam saudações petrificadas em destroços de estátuas desbotadas, encenando um macabro ar de boas-vindas. Definitivamente, não parecia um lugar para crianças.

O trem parou na plataforma. Recrutas se enfileiravam a cada 20 metros armados de Kalashnikovs e rostos sisudos. Dois grandes quadros pintavam a face dos líderes no topo de um prédio arcaico e cinza, dele saíram os oficiais para a revista de passageiros. Fui o primeiro a ser abordado. Vasculharam minha câmera com certa simpatia. Pediram-me o passaporte e o cartão de entrada. Estava tudo certo, não fosse o que anotei no campo destinado à profissão: estudante. Eu, um jornalista, entrando sem a permissão especial necessária no Estado mais repressor e vigiado do mundo. Aproveitei-me da aparência relaxada com minha longa barba e, naquele momento, me travesti de Marcos: 31 anos, mora com os pais, matriculado há 12 anos num curso de ciências humanas da Universidade Federal, adorador de regimes totalitários de esquerda e com um iPhone no bolso. Talvez com esse disfarce fosse mais fácil cair nas graças do regime da Família Kim.

04

O trâmite de entrada é lento. Pilhas de passaportes encartados com o papel azul do visto foram levados ao escritório da imigração. Uma espécie de “serviço de bordo” se aproximou da plataforma. Mulheres bem trajadas empurrando carrinhos entupidos de bolachas, batatas chips, sucos, maços de cigarro e cerveja da Coreia do Norte. Destampei a primeira garrafa de Taeddongang e dei um dos goles mais surreais da minha vida, bebendo e falando alto no porto de entrada de uma nação isolada e regida sob austera batuta ditatorial, dividindo espaço com pólvora; onde a menor oscilação de humor faz cócegas no gatilho. Não há placas de “bem-vindos à República Popular Democrática da Coreia” na fronteira e em lugar algum.

Quando o maquinista soou a buzina de partida e todos já se acomodavam em seus vagões, dividi cabine com uma família de nativos que desembrulhou um banquete de dentro de sacolas plásticas. Devoravam aquela comida sem cheiro e pouco apetitosa por ali mesmo, sem pudor, transformando suas malas em mesas. O ritmo vagaroso colocava o destino a seis horas de meus pés. Durante esse tempo colei minha cara numa das janelas do corredor de fumantes. Lancei meus olhos e lentes o mais longínquo e imprevisível o possível; para onde a censura do governo fosse incapaz de limitar o registro dos sentimentos expostos em feridas de peles ermitãs e enrugadas à beira da linha férrea. Meu coração batia mais feroz, um misto ofegante de ansiedade e sanha.

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Campos castigados ao final de mais um inverno cruel no leste asiático se abrem ao longo de quase 250 quilômetros. São poucas cidades pelo caminho. Na verdade, me sinto mais confortável chamando-as de vilas. As casas são iguais. Os cortiços são iguais, suas cores são de uma paleta pobre. Paredes de concreto banhadas aos tons aguados de tinta amarela (ou bege), azul (ou verde), e vermelha (ou rosa). Raros automóveis pulverizam poeira pelas estradas de chão batido que ligam o interior à capital. Escassos ônibus caindo em pedaços. Alguns caminhões e dois tratores soviéticos dos anos 40, talvez. Senhores velhos fumam no intervalo entre o plantio de nada, o nada pra fazer e o nada pra colher. O gado é peludo, e praticamente em extinção; quando aparece, está arrastando a dureza do arado, comandado pela vara comprida de um camponês ancião.

A cada pequena estação, militares vagam praticando um pouco mais de ócio beligerante. Bandeiras e imagens de líderes se alastram tremulantes e presentes ao estilo decoração retrô. Faz sol, mas também um pouco de frio. Senhoras judiadas interrompem o que parece ser a semeadura para olhar o comboio deslizando sobre os trilhos de aço. Estariam elas jogando suas últimas sementes de esperança naquele solo que parece agonizar? Se essa importante ligação entre o exterior, o interior e a capital da Coreia do Norte se apresenta assim; se essa é uma pequena parte do que o reinado severo e extremamente controlador da Família Kim abre mão à curiosidade dos minguados visitantes; se fotografar a pobreza é algo absolutamente proibido por esses lados, então eu pergunto: o que estaria pra lá dessa linha férrea cravada nesse fim de mundo? O “Campo 14”? O “Campo 16”, o “22”? A ossada da mãe do Shin e das outras centenas de milhares de opositores? As fábricas de fertilizante agrícola à base de excremento humano? Afinal, o que se esconde atrás do fim do mundo?

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O crepúsculo abraçava a atmosfera poluída de Pyongyang quando o maquinista voltou a buzinar gritando a chegada. Um hino nacionalista bradava estridente dos megafones da ferroviária. Não compreendia uma letra do que dizia, mas sentia que fazia parte da doutrinação amorosa à pátria e sua dupla de semideuses. Desci do vagão um pouco atordoado e desengonçado. Três guias do governo aguardavam na plataforma de desembarque. Dois cavalheiros e uma dama elegantes em ternos de alfaiate. Cumprimentamo-nos. Um dos homens me estendeu a mão direita e com a esquerda segurou o próprio cotovelo. Seu aperto de mão era polido e macio como o de uma donzela. Era estranho. Era como se eu não estivesse vivo, como se eu fosse parte de um filme mal produzido, um filme ruim, de galãs cafonas e péssimos protagonistas; ou como se eu me encontrasse sem saída dentro de um jogo de vídeo game, numa fase com misturas de anos 50 com 80 e nada mais.

Seguimos para o ônibus. O jantar de boas-vindas nos aguardava em um dos melhores restaurantes da cidade. Anoitecia quando cruzávamos a hora do rush bem sossegada e incomum, rasgando as avenidas cravadas por monumentos massivos e pouquíssimos carros. Posto à mesa redonda um menu com carne de ave ossuda, pequenos peixes estufados de ovas ruins, vegetais e Kimchi, a tradicional acelga marinada em acidez picante que eu veria pelo resto dos meus dias, do café da manhã à ceia. Foi servido também um corriqueiro blecaute de 20 minutos, o que não fazia parte de nenhum clima romântico.

Agora, aqui da janela do 38º andar, percebo as luzes esmaecidas oscilarem na metrópole lá embaixo. O vento sopra um silêncio perturbador e hipnótico. A luz caiu de novo. Melhor apagar meu charuto antes que ele também se apague. Preciso economizar um pouco de ar e, quem sabe, conseguir dormir minha primeira noite na Coreia do Norte.

Continua no próximo capítulo.

     *Marcos DeLacumbre Holtz é escritor e jornalista gonzo. Ele aceitou o convite da INVICTUS Tactical & Outdoor para viajar sozinho à Coreia do Norte em meio à tensão de guerra x paz.  

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11 comentários sobre “A Coreia do Norte muito além do jornalismo engessado

  1. Sem muitas palavras… Somente que me solidarizo por esta nação dominada por quase nada, que se diz alguém e a você Marcos Parabés por sua ousadia em viver contando ao mundo como é “A vida, como ela é!”
    Sucesso carissimo semelhante!!!

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