Salta, “la linda”. E muito gostosa.

Irresistível, província do norte argentino esconde beleza ímpar em estradas terríveis e relevo mutante

A última janela de um boteco na esquina da Calle Córdoba com a Caseros é testemunha ocular da devoção. Do lado de dentro no máximo nove mesas; um senhorzinho boliviano com traços de ar rarefeito no rosto largo serve empanadas e cerveja Salta. Trouxe-me um copão fosco e gelado com o adesivo que exprime o orgulho dos povos originários nos quadrados coloridos de sua bandeira. Definitivamente, eu estava de volta aos Andes, com a minha garota escancarando suas pérolas pra fora de uma bocona curvada e feliz pelo primeiro contato junto à carne de uma cultura distinta de tudo que já havia vivido. Meu olhar carregava cansaço e uma gritante satisfação por tê-la arrastado até ali. Independente de uma vida eterna ao meu lado, aquilo a marcaria pelo resto de seus dias. E essa é minha definição para “legado”.

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“La Tacita” bar.

“La Tacita” é o nome do bar. A noite é de Natal. 24 de dezembro de 2016. Tão histórico pra mim, quanto para a família de Jesus num estábulo, quanto para os reis magos salpicados de areia durante a perseguição desértica à estrela cadente de Belém. Tão histórico quanto a vitória do The Strongest no clássico futebolístico de La Paz, frente ao Bolívar; a televisão anunciava o fim da partida no país vizinho. A ceia armada ali, à última janela de um botequinho simples, de frente para a avermelhada Basílica de San Francisco e o vai e vem de seus devotos. Os sinos badalavam por toda a capital da Província de Salta, tinha missa na Catedral também, em frente à praça principal, onde o comércio baixava as portas rumo à tradição familiar anual. Um toque de recolher sacro aos que tinham para onde ir. Nós – por sorte – não tínhamos.

Devota Salta indígena. Devota aos santos de uma imposição europeia, hoje um pouco mais livre para cultivar de volta as raízes de sua Pacha generosa Mama. Devota à mítica lenda local: o Gauchito Gil, em sua calça folgada, lenço vermelho e chapéu. Salta, livre, Salta. Graças ao aclamado – e por que não? – santificado General Güemes, o grande líder do exército gaúcho; com seus ponchos vermelhos e laços bailantes sobre cabeças destemidas, cavalgando nos campos das províncias nortenhas em nome de seu território. Revolução lembrada hoje nas cores da bandeira honrada que traz o sangue dos bravos em seu belo tom bordô.

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As entranhas de Salta

Um hotel em Payogasta

Dali basta dar partida no carro e ir guiando pela Ruta 33, da Quebrada del Escoipe a Cuesta del Obispo, margeando rios secos e paredões de pedra; testemunhando a mutação da flora onde galhos folhados dão espaço a cactos verde-queimado, de muitos espinhos, coroados com poucas flores rosadas que desabrocham para surpreender. Cactos, ou “cardones”. Gigantes com 2, 3 metros enraizados na aridez de um parque nacional e especial, abrindo um corredor sem fim até a terra do pimentão e da páprica: o acanhado vilarejo de Payogasta. A Ruta 40 cumpre o papel de principal avenida do povoado, com seus raríssimos dois quilômetros de asfalto margeados por casinhas simples, comedores, tendas e pequenos produtores de “pimentón” exibindo seus frutos secos sobre lonas estendidas ao sol escaldante.

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Parque Nacional de los Cardones.

Quase no beijo do pavimento com a poeira está o que talvez seja o único hotel do lugar, o Sala de Payogasta – ocupando os dois lados da rodovia. À direita de quem segue para o sul está o maior casarão da cidade, remanescente dos tempos de batalhas provinciais. Adepto ao suspensório que escorrega sobre a pança pra segurar as calças, Don Julio, o herdeiro caolho de um ex combatente, é quem hoje tem a missão de atrair escassos turistas para uma linda estrutura. Quartos de teto alto, cobertura de adobe sustentada por vigas em troncos de cacto e palha; portas com dupla abertura; janelões com vista para um vasto campo verde e lilás com cheiro de lavanda, vigiado por um grande planalto bege semelhante a uma mesa gigantesca onde os deuses palitam os dentes após o banquete. Por falar em comida, a janta atravessa a “rua”, vinda de uma janelinha com luz amarelada lá de dentro. Paula e eu somos os únicos e especiais hóspedes. Os grilos regem uma sinfonia particular e romântica.

Leandro, o recepcionista e também garçom, é o argentino de pele “bugra” e fala tímida que desarrolha a primeira garrafa do vinho produzido nos vinhedos que ficam atrás da cozinha do próprio hotel. Cítrico, alcoólico e com gosto de Payogasta. O anfitrião se retira. Ele volta em poucos minutos carregado de pães caseiros, salsas picantes, feijões brancos gordos e o chimichurri meticulosamente triturado e inspecionado por Faustina, uma cozinheira de jeito e riso simples, e mãos refinadas. No prato principal, lascas de cabrito estufam tiras intercaladas de berinjela e queijo de cabra, poderia chamar aquilo de lasanha salteña, mas devo admitir que, entretido num sabor singular, pouco me importei em anotar o nome da iguaria.

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Sala de Payogasta, um grande hotel.

Às 23 horas Leandro e Faustina partem pela Ruta 40 até que a escuridão consuma seus corpos numa bicicleta. O jovem pedala e ela vai sentada de lado na garupa. Ele apenas encosta a porta de entrada do hotel e nos deixa ali, sem chaves ou trancas; com um cachorro no pátio quadrado ornamentado por uma pequena praça central que abriga uma lareira ao ar livre; nas colunas de sustentação se abraçam parreiras de pequenas uvas verdes. Nós, as barrigas cheias, um frasco de chimichurri, o céu estrelado e a interminável sinfonia dos grilos. O que soaria soturno e dramático e assombroso para alguns, foi nossa noite naquele casario hoteleiro em Payogasta. As portas rangem, as molas de um imenso colchão vibram. Amanhã o café da manhã regional com marmeladas de cayote (uma espécie de abóbora andina), estará à mesa, encarando aquele campo de lavanda aos pés da montanha.

O melhor risoto do mundo não leva arroz

Resumir Cachi a uma tigela de barro fumegando risoto de quinoa não seria relaxo ou demérito a este povoado que está a cerca de 10 quilômetros ao sul de Payogasta, seguindo pela Ruta 40, que rasga a Argentina de norte ao extremo sul. É que Cachi é uma intimação à gula prazerosa de caminhar por suas ruas pacatas com as mãos nos bolsos, vasculhando velhos armazéns de azeite artesanal, cervejas maltadas com cereais característicos da terra, laticínios caprinos, as melhores empanadas da Argentina, tamales (um tipo de pamonha) de carne seca e claro, o melhor risoto do mundo. Tudo regado a vinho mais barato que água e à cerveja local.

Paula e eu cambaleávamos grogues e felizes, passeando pela praça central após uns tragos e uns beliscos nos botecos ao redor da igreja. Insaciáveis e incontroláveis, estávamos à procura de algo um pouco mais fervoroso; algo que continuasse cozinhando mesmo depois de mastigado, dentro de nossos estômagos jamais combalidos, extremamente metabólicos e, àquela altura, inundados de suco gástrico. Algo que continuasse vivo mesmo depois de uma providencial passada no banheiro. Aquelas mulheres do simplório “Comedor Pueblo Hermoso” conseguiram.

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Em Cachi, faça este favor a sua alma.

María, uma senhora de voz mansa quase inaudível recepcionou-nos com seu olhar terno, cabelos de petróleo amarrados; uma caneta e um caderninho de pedidos nas mãos. Perguntamos pelo prato mais vivo, o prato que poderia ser o prefeito da cidade e, quiçá, presidente do país.

– Coma o risoto de quinoa – soprou um senhor que jantava com toda família bagunceira em três ou quatro mesas coladas umas as outras.

Era aquilo. A sugestão de um legítimo patriarca local, um manjar local, num modesto restaurante local de singelas toalhas de mesa. Em alguns minutos María voltaria sorridente com a tigela do aguardado melhor risoto do mundo. Ela então ancora ao meu lado e testemunha emudecida, até que eu desse a primeira colherada e posteriormente os sucessivos gemidos de prazer gastronômico. Aquilo era tão único e espetacular que, mesmo se chamando “risoto”, descartava arroz e envergonhava italianos. Risoto de quinoa, o risoto andino. Um creme branco esverdeado salpicado de cereais vindo à tona, gotículas de salsa vermelha na superfície. Uma mistura borbulhante de queijo, leite, cebola, alho e pimentões verdes; fatias de pães chapeados numa só face vinham mergulhados à borda.

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Invadi a pequena cozinha e cumprimentei três das melhores cozinheiras que já conheci. Modestas, nenhuma aguardava o êxtase de um estrangeiro no que deveria ser só mais um dia por ali. Mas eu precisava tocar aquelas mãos benditas e me curvar como quem pede um pouco daquela graça. Precisava colocá-las num altar. E o fiz propositalmente na presença de seu patrão debruçado numa antiga caixa registradora, eu era o entusiasta puxando a saraivada de aplausos de uma plateia ensandecida dentro de mim. Aquele cara meio tristonho e desmotivado precisava saber do valor que sua cozinha escondia de afamadas Estrelas Michelin. Havia galáxias inteiras dentro daquelas panelas velhas e amassadas, encrustadas de comida e verdade.

O obelisco que você conhece é uma cópia

157 poeirentos, esburacados e abandonados quilômetros pela Ruta 40 ligam Cachi a Cafayate – cidade onde as bodegas e vinhedos se proliferam impulsionando a economia local. Mas antes disso, são oito horas subindo e descendo pela estrada que transforma viajantes em brita dentro de liquidificador. Compõem a paisagem: manadas de bodes e seus pastores que cruzam o caminho; postos de gasolina com bombas secas e abandonadas, assim como as lanchonetes sem ao menos moscas, capelas sem sangue de Cristo nos cálices e vilarejos completamente evadidos. A autoestrada pinta o cenário pós-apocalíptico de um ataque marciano fictício, tornando assim difícil para um casal não se imaginar como a última esperança da raça humana na Terra.

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A última esperança da Terra.

Esculpidas pela ação do vento e das águas que ali fluíam há milhares de anos, as rochas peculiarmente posicionadas e enfileiradas na diagonal ganharam semelhança a pontas de flechas. Motivo suficiente para batizar o vale como “Quebrada de Las Flechas”. E aí a criatividade para nomes e apelidos aos brindes que a natureza promove à beira da estrada se mostra indomável. Quando Cafayate definitivamente aparece com uma taça de vinho na mão, a cidade faz do encontro da RN 40 com a 68 uma mistura de suco de uva com poeira. É claro, depois de uns mergulhos em barris de carvalho, é hora então de retornar a Salta Capital pela RN 68. A via asfaltada que se enfia na “Quebrada de Las Conchas”. Abruptamente as cores frias da RN 40 ganham tons quentes, com paredões rochosos sanguinolentos e formações que cultuam animais, Deus e o Diabo.

Ainda que quase 1500 quilômetros distante da Avenida 9 de julho, em Buenos Aires, é possível parar para um belo almoço na companhia do nada, com vista especial para “El Obelisco”. Basta guardar algumas empanadas da noite anterior, invadir uma banca de artesanatos abandonada e se esbaldar entre goles do gargalo de garrafas de vinho quente, chimichurri e o visual para um monumento original entalhado pela própria natureza. E dali pra frente aparecem grandes plataformas de pedra no horizonte, os “Castelos”; o Cerro das Três Cruzes, que insinua um calvário andino prestando condolências à morte na cruz, oferecendo uma das melhores paisagens para apreciar enquanto se morre de êxtase sem lanças romanas nas costelas. Um pouco mais pra frente pode-se sentir também o bafo do Capeta, numa fenda rochosa pichada e mal conservada: a Garganta do Diabo, que de interessante mesmo só o nome.

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Mirador “Tres Cruces”, RN 68.

O último posto de gasolina da Argentina

Pouco antes dos primeiros raios de sol em La Silleta, comunidade rural de Salta Capital, é preciso desviar de uma infinidade de sapos e rãs espalhados pelas passarelas de pedra que levam à cozinha e recepção do albergue. Liga o carro. Passa a porteira e vá. Vá em busca do último posto de gasolina da Argentina. Completa, verifica o óleo, a calibragem dos pneus e vá. Às alturas, subindo por estradas péssimas e completamente abandonadas, com pouquíssimos e de funcionamento duvidoso, postes de S.O.S. Vá roubar o ar de Deus num dos pitstops de Ícaro em sua fracassada peregrinação rumo ao sol. Você provavelmente irá encontrar um santo com dentes de cobre no sorriso.

“Bienvenido a San Antônio de Los Cobres”, diz o outdoor da Coca-Cola numa publicidade da década de 70, com o desenho rechonchudo de uma “chola” charmosa (a tradicional mulher dos Andes; de longos saiotes, chapeuzinho e tranças no cabelo). No morro também, pedras brancas formam a saudação casada ao nome do lugar. Estabelecimentos de portas fechadas, vento soprando poeira. Silêncio. Onde iria conseguir uma Coca-Cola naquela situação? Nada que não pudesse ser rompido com uma passada no pequeno mercado de artesanal para comprar um saquinho de erva. Muña. Um odor fresco e forte que expande as vias aéreas e, segundo as tradições locais, ameniza o mal estar causado pela altitude; ou como dizem os nativos: “la puna”.

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La Polvorilla.

Perto dali, a caminho do Atacama pelo desértico Paso de Sico, um trem que promete levar passageiros às nuvens urra por trilhos a 4.200 metros de altitude. Ele serpenteia montanhas de cor morta que contrastam com o azul celeste. Seu ponto final não contempla nenhuma estação fantasma cravada no fim de um mundo árido, apenas uma ponte ferroviária com estrutura de ferro. Um viaduto resistente que serve de mirante aos que desembarcam para fotografar e contemplar a vista. Depois disso e de mais um pouco de pó, lhamas, trilhos e casebres de barro abandonados, a Argentina mostra o seu pedaço de Atacama pela RN 51; não se cansando de mudar de relevo, abrindo as portas de uma nova fronteira com o desejo de “volte sempre” soprado pela ventania bem nos dutos dos ouvidos de quem a desbrava.

Por Marcos M. Holtz


Mais fotos

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Basílica de São Francisco
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Salta Capital.
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Cuesta del Obispo.
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Às vezes passa um rio aí na Quebrada del Escoipe.
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A cozinha rancheira do Sala de Payogasta
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RN 40, a Argentina de Norte a Sul.
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Nem moscas , nem burger.

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A caçadora de lhamas.
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