Embala pra viagem: empanadas salteñas

Macias, perfumadas e deliciosas empanadas são uma boa mordida na cultura andina (as costelinhas de porco são meramente ilustrativas, mas estavam uma delícia).

Salteña: pessoa nascida na Província de Salta, Argentina; ou apenas uma bela empanada, vulgarmente conhecida como pastelzinho de forno, coisa deliciosa de tirar o fôlego, especialmente se devorada em seu lugar de origem, a Bolívia. Estranho? Não. O fato é que a Salteña é uma binacional, elaborada por mãos argentinas, concebida em solo boliviano, dona do amor verdadeiro de todos que visitam os Andes.

Essa meia lua delicadamente lacrada por dobras habilidosas é invenção de uma antiga senhorinha argentina, nascida em Salta, mas, refém do medo imposto pela truculenta e espinhosa Ditadura de Rosas (entre 1829 e 1853). E que Diabos a Bolívia tem a ver com isso? É que na época a vovó ali se refugiou no país vizinho e, pra sobreviver, apresentou aos bolivianos a sua iguaria que logo foi batizada em homenagem ao tradicional bairrismo salteño (que representa um orgulho humilde, e não insuportável como muitos por aí).

Mas o papo aqui é embalar pra viagem e encher a pança com cultura gastronômica de primeira, vamos lá? Então deixa de preguiça e bota a mão na massa, literalmente.

A massa

Quem possui o paladar um pouco mais apurado constata na hora o grande diferencial da massa: banha de vaca, o que pode ser substituído tranquilamente por banha de porco, então para a massa:

sal;

banha (de vaca ou de porco);

farinha de trigo;

água quente para derreter a banha.

Misture, meleque os dedos, jogue mais farinha até que tudo fique no limite entre o oleoso e o molhadinho. Sove, esmurre, espanque até atingir a maciez necessária. E não me pergunte sobre medidas, porque aqui cozinhar é sempre um experimento movido muito mais a frequência cardíaca e saudade, que propriamente destreza e técnica.

Feito isso, deixe a massa descansando como uma bola gorda numa bacia por umas duas horas, cubra com um pano úmido e vá para a melhor parte: fazer o recheio.

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Desculpem-nos. Nós não sabemos fazer passo a passo fotográfico das coisas, assim como não gostamos de fazer ~Isnépecheti~ de Instagram.

O recheio

Você vai precisar de:

carne moída (patinho ou coxão mole fica legal);

alho, cebola e cebolinha (coentro se você não for enjoadinho);

pimenta do reino;

cominho (é o grande perfume da salteña);

ovos cozidos;

azeitonas verdes picadas;

azeite de oliva;

batatas cozidas cortadas em pequenos cubos.

Agora, dependendo do seu nível de habilidade para avivar carne abatida com bons temperos, você vai matar a vizinhança com o cheirinho.

Doure a cebola e o alho no azeite de oliva. Jogue o boi ralado e vá misturando tudo com a carne se soltando e pegando cor nesse princípio de caldo gorduroso. Salgue a gosto. Coloque pimenta feito homem/mulher. Cominho, lembre-se que o cominho é o grande toque da receita, é o perfume, e nem o melhor perfume do mundo fica legal em demasia, seja cirúrgico, mas vá sem medo.

Prove a mistura, veja se precisa de mais algum talento, e despeje os ovos cozidos, as batatas e as azeitonas picadas. Dá uma revirada com cuidado para não deixar a batata virar purê. Acrescente a cebolinha e o coentro e deixe descansar.

A montagem

Com o recheio pronto e a massa descansada, é hora de esticá-la em pequenos discos de 5 a 6 centímetros de diâmetro. Utilize um pires para moldar e recortar. Sempre use a farinha na plataforma para não grudar a massa e ficar puto da cara. Recheie o centro da massa deixando uma borda de aproximadamente um dedo de espessura para fazer a dobra. Para fazer as dobras, veja as fotos, tutoriais no youtube e tente imitar. Isso ficou por conta da Paulinha, que mandou bem demais.

Feito isso você pode pincelar as empanadas com gema e levar ao forno pelo tempo que você julgar que está assado e a massa dourada. Se você tem uma airfryer poderosa igual a da minha sogra Adenilde, vá em frente, fica bom demais. Se você é gordo e não se importa de passar esse trabalho todo pra comer algo frito que “lembra” pastel, afunda isso no óleo e bom apetite. Caso você seja um bêbado moralizador que faz até miojo em churrasqueira, parabéns, defumar a empanada com lenha é ainda mais raiz.

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Acompanhamentos

O molho chimichurri é fantástico como acompanhamento, não fizemos o nosso, ganhamos de uma cozinheira de Payogasta e estávamos quase comendo puro. Outro dia faremos nosso próprio e postaremos aqui. Outra opção é um molho picante que leva tomate, azeite de oliva, pimenta dedo-de-moça, limão, sal e vinagre. Bata tudo no liquidificador e já era.

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Eu ia até convidar vocês, mas já comemos.

Com as empanadas salteñas assadas é só mergulhá-las na salsa e correr pro abraço de Pachamama.

Embala pra viagem e vem com o Mochila Crônica.

*As melhores viagens não têm roteiro, assim como as melhores receitas não têm matemática, cada um dá o toque que acha importante numa base pré estipulada. Acreditamos na criatividade e na capacidade que ela tem de gerar experiências tão fantásticas quanto ultrapassar uma placa proibitiva durante uma viagem.

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Um comentário sobre “Embala pra viagem: empanadas salteñas

  1. pobre de mim, q queimo até água … só me resta salivar ( a riqueza de detalhes é de matar) vou copiar a receita e carregar comigo….quem sabe encontro uma alma bondosa q saiba cozinhar e asse algumas para mim!!

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