MACHU PICCHU DE MERDA: os Incas e os incapazes de viver a história

A moda agora é “xingar” o santuário Inca nas redes sociais.

Artigo de Marcos Holtz confronta blogueiros de viagem que literalmente viajam.

Fiz um título para ganhar views e leitores. Mas explico: Machu Picchu é de quem mescla a própria história com a história dos Incas. A riqueza de viajar tá na dor, no gol de mão aos 49 do segundo tempo na casa do adversário. Porque tudo vira uma bela história.

Machu Picchu é indiscutivelmente linda, mas atrai turistas “meio bosta”. Eu costumo dizer que o perrengue é parte crucial de uma boa viagem. Se você não está preparado para mastigar merda num canto fantástico do planeta, por favor, então continue pagando suas prestações para um cruzeiro de sete dias com a CVC. Lá tem “all inclusive”. Um viajante é o apreciador do perrengue. É o que xinga na hora, chora, tem vontade de matar alguém, mas é o primeiro a sentir saudades dos dias de cão do asfalto.

Bom, eu não sou um blogueiro de viagens porque essa é a função de quem sabe anotar gastos, traçar rotas; de quem sabe ser benevolente e entusiasta dos sonhos alheios; de quem tem o dom de empurrar sonhos pra frente. Os admiro muito pela dedicação em inspirar pessoas, especialmente quando geram conteúdo próprio e criativo. Mas, confesso, gosto de poucos blogueiros de viagem. Acho que eles deveriam deixar a expressão mais acalorada de emoções para pessoas que realmente sabem senti-las e colocá-las no papel ou num vídeo.

É claro que Machu Picchu é caro. Somos brasileiros fodidos com o dólar a 4 reais. É claro que é difícil chegar lá sem grana. Mas o pior é saber disso e jogar a conta da nossa indisposição, ignorância, mau humor e irresponsabilidade, em cima do Atahualpa, do Pachacuti e até da Pachamama. Filho, se caía um temporal quando você resolveu subir os Andes; se a subida era íngreme; se o seu estômago é de moça da realeza francesa; se você é “meio bosta”, FODA-SE VOCÊ. Você mal sabe usar um compasso e tá aí desdenhando de uma arquitetura pré-colombiana incrível. A história da América já teve um Pizarro matuto e ceifador de cultura indígena, não queira ser um Pizarro da era cyber. A exploração turística de Machu Picchu é bisonha? É, parabéns pela análise “complexa”. Mas separe as coisas.

Machu Picchu é pra quem quer tirar uma foto e postar no Facebook? É sim, fazer o que? Assim como o Taj Mahal, a Torre Eiffel e derivados. Mas Machu Picchu também é daqueles que não estão nem aí pra isso. Machu Picchu é daqueles que queriam ser a lâmina do facão do Professor Hiram Bingham, há cento e poucos anos, quando ele encontrou a cidadela perdida. Machu Picchu tem uma trilha pesada de quatro dias na selva, Machu Picchu é pra quem quer pisar onde o suor do guerreiro Inca pingou. Machu Picchu é uma homenagem ao sacrifício de todas as lhamas negras à Madre Tierra. Machu Picchu é uma lenda viva desvendada. Machu Picchu é pra quem fecha os olhos, respira e permite que um campo de força especial prenda o homem moderno à história num momento sublime. Fodam-se os japoneses e suas “Nikon”.

Particularmente você pode não gostar de Machu Picchu – respeito, mas quando escrever sobre isso, não renegue uma história que pertence a toda humanidade. Você pode ter um grande poder de formar opinião, mas não pode se alimentar de polêmica vazia e experiências levianas em troca de views. Remediar polêmica com “cultura rica”, “natureza exuberante” e demais clichês não fazem contraponto ao mimimi turístico. A gente (público minimamente pensante), gosta de gente viva, não de Kéferas youtubers. Enfim, você pode até ser um turista, nada contra, mas não pode é ser “meio bosta” com o fascínio que é a história. Não pode ser “meio bosta” com quem sabe, de forma recíproca, viajar na estrada e na história que nossos antepassados nos legam. Viva os bostões do Julio Verne e do Erich von Däniken.

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