Ferrovia do Trigo, a novela. Capítulo Final

De volta à Estação Fim do Mundo

O cenário pós-apocalíptico se estendia pelos segundos incessantes da madrugada. O susto diluiu pó de insônia em água, nos embriagamos daquele maldito elixir e apenas ressonamos. De meia em meia hora, Reck me acordava:

– Hey, Mark, ouviu isso? – Sussurrava.

– Isso o que, caralho? – Respondia eu, durão, mas com o cu que não passava uma agulha.

– Cara, tem gente rondando a barraca! – Sentenciou.

Por um minuto paralisei, deixei de respirar e fiquei curtindo aquele silêncio mórbido que vinha lá de fora. Minha razão gritava que eram bichos no mato, e que pessoas fariam muito mais barulho ao caminhar sobre o chão de terra batida. Mas, ainda assim, ficou impossível não esperar pelo facão do Jason rasgando a nossa toca, atorando toda sua lâmina em meu crânio avantajado. Vi um banho de sangue entre as mochilas e sacos de dormir de um acampamento patético.

– São lagartos, Reck, gente faz um esporro danado pra andar num terreno desses. Dorme! – Falei, dando uma de biólogo do Discovery ao explicar sobre os répteis àquela hora.

E assim a noite se arrastou como lesma. Despertamos pra valer às 5h e pouco. Era o trem, de novo, desta vez em direção contrária, estava subindo a serra com muita dificuldade. Deu a ré para pegar embalo e enfim cruzou a via férrea ali do lado. Vestimo-nos, recolhemos tudo e zarpamos aos primeiros indícios de claridade. A neblina veio como prenúncio de uma nova pernada sob o sol escaldante. Um portal angelical se abria diante de nós, do alto das pontes poderíamos mergulhar em nuvens de algodão. Mesmo com os transtornos noturnos, estávamos um pouco mais dispostos nos primeiros momentos do novo dia. Achávamos, pobres e inocentes, que completaríamos o percurso até a hora de almoçar. Delirávamos com um prato de pedreiro, cheio de arroz, feijão e carne, em algum pé sujo da cidade de Muçum. Então não economizamos nos mantimentos e, cabaços, fomos devorando toda a reserva de cereais e chocolates já de manhã.

Andamos, caminhamos, sentamos o rabo sobre os trilhos, calculamos o percurso às cegas, e voltamos a marchar. Mais túneis, um com dois quilômetros de extensão, e aquela escuridão sem fim começava a afetar nosso cérebro já baleado. Racionamos a luz revezando as duas lanternas que começavam a pifar, elas ficaram a noite toda acesas para nos proteger. Mas agora, falhando, poderiam nos matar. Rastejávamos feitos zumbis pelo purgatório das trevas. Entre bufadas e níveis de estresse aos píncaros, dentro daquele buraco escuro, gelado e sem fim, Reck declamou sua tese-testamento:

– Caras, acabou! Chega! Morremos na noite passada, fomos atropelados sim, aquilo foi o fim. Estamos mortos! Morremos! Morremos!

E realmente, nossos corpos estavam mortos. Parecíamos vagar rumo ao nada só para assombrar quem se atrevesse ao caminho. Éramos três almas penadas, viraríamos lendas e atrairíamos o turismo paranormal à região. Guias de viagem contariam nossas histórias com o triplo de fantasia. Nossa epopeia trágica, e agora fantasmagórica, seria narrada pela voz de Cid Moreira no Fantástico aos domingos. A Ferrovia do Trigo seria rebatizada como “Ferrovia Fantasma”.

A luz no fim do túnel nunca foi tão redentora. Saímos daquela garganta de dinossauro e continuamos a saga. Pontes, túneis, pontes, túneis, até alcançarmos o famoso V13, Viaduto 13, ou ainda Viaduto do Exército, a maior ponte ferroviária da América Latina. – Alguns arriscam que ela seja a segunda maior do mundo com seus 143 metros de altura. Uma herança deixada pelos tempos militares da Ditadura Geisel. Construído com as vidas de muitos recrutas, o monumento é motivo de orgulho para os camuflados brasileiros.

O corredor de concreto, pedra e trilhos, que fazia aquelas duas pontas do vale darem as mãos, acalantara um pouco da nossa tensão. Exploramos o local tirando algumas fotos, apreciando a natureza e espantando os urubus gigantes que faziam sentinela dos parapeitos. Distraídos, e de costas para o túnel que nos metera na ponte, fomos chutados por uma buzina que ecoou por toda aquela cratera verde. Sem olhar para trás, corremos, foi sebo nas canelas até percebermos se tratar apenas de uma vagoneta de manutenção. Os operários, aqueles miseráveis, se puseram a rir da nossa corrida. Ordinários, mal sabiam eles que suas mães estavam na zona.

Sol a pino, retas imensas e curvas trilhadas. Reta após reta, toda esquina em seus finais era a esperança de, finalmente, atingirmos o clímax da peregrinação na Estação Muçum. Doce ilusão. A água acabou, os chocolates, cereais e outras bobagens já tinham ido para o beleléu fazia tempo. Agora a guerra era contra a sede. Nenhuma fonte jorrava em nossas caras. Com o calor intenso da tarde, era improvável que a chuva não viesse a cair além, porém, até lá, o inferno fora a única realidade. A paisagem ficava cada vez mais desértica, havia ossos de animais pelo chão, cabeças de cachorro e até um fêmur grande que eu esperava não ser de um humano. O céu ganhou tons de carvão e eu passei a duvidar da existência de um destino final, a “estrada” era sem fim.

Às quatro da tarde deparei-me com uma miragem. Uma fonte. Águas que escorriam fracas, gota a gota, em um paredão de pedra negra incrustrado de limo esmeralda. Parei. Olhei embasbacado, com o pescoço caído para o lado direito e os ombros rebaixados, apaixonado e sedado por aquela imagem à minha frente. Meus companheiros observaram a cena em silêncio. Não pensei em lençol freático de cemitério, esgoto ou bebedouro para porcos de abatedouro. Larguei minha mochila ao chão como uma tesuda que cavalga em você e abre o sutiã por uma trava frontal. Fui de cara às pedras, cai de boca para chupar a água e o musgo. Revigorei. Depois disso Götz e Reck fizeram o mesmo. Os trilhos nos transformaram em completos selvagens.

Descíamos a serra. Sujos. Fedidos. Fodidos e mal humorados. Lá em baixo, como uma maquete vagabunda de “Minha casa, minha vida”, avistávamos uma estreita estrada de terra, uma micro igreja e carros que pareciam formigas. As moradias idem, em resolução mínima ao olhar, ficavam às beiras das gigantescas encostas que enraizavam lavouras morro acima. Não havia trilha aberta, não havia caminho, só a mata fechada até as plantações ou os eternos trilhos do Demônio. Decidíamos pular fora dali e pedir ajuda na vila quando um dilúvio resolveu “premiar-nos”, só que ao contrário.

São Pedro deu a tradicional mijada matinal de pau duro sobre nossas cabeças. E os religiosos diriam que isso tudo foi uma provação. – Porra! Provação pouca é bobagem. Chegamos ao topo de um canavial, a terra de plantio já se virava em barro. Sem perícia alguma, dormência nas pernas e quilos nas costas, fomos escorregando aquela bosta íngreme do jeito que dava. Caí. Rolei uns 5 metros pra baixo tombando canas-de-açúcar ao chão. Demos com os burros em um alambrado, contornamos a área, pulamos uma cerca elétrica, encaramos uma vaca leiteira e invadimos uns belos hectares vastos de soja. Os caules e folhas batiam na altura do meu abdômen, desenhamos nossa grande rota de fuga no sustento daquele homem do campo. Uma visão aérea poderia até sugerir traços alienígenas. Os raios e trovões não assustavam tanto quanto o medo de levar um tiro de Winchester. Foda-se, era nós ou a soja. Eu não tinha a alternativa de virar leite ou carne para vegetarianos.

Como maus frutos de uma colheita maldita fomos jogados para a estradinha. Pegamos à esquerda e caminhamos por mais uns 200 metros. Encontramos uma casa simples, sem muros no terreno, e fomos entrando calmamente para não causar má impressão aos moradores daquela pacata comunidade. Mancos, ofegantes e cobertos de barro e lama, ainda debaixo de pingos de chuva que doíam na cabeça, nos apresentamos aos “anfitriões por acidente”. Pedimos água e ajuda. Não importaria o que disséssemos, de onde viemos ou o que fizemos. Parecíamos uma espécie suína de extraterrestres jogados de uma sonda espacial que acabara de fazer desenhos, ou arte, num enorme campo de soja.

Abrigados da tempestade em uma varanda campeira, a acolhedora família Brandão, com todo o carinho e receptividade do mundo, nos trouxe cadeiras. Quando percebemos já estávamos tomando boa água, comendo bolo e uma pipoca doce caseira que jamais esquecerei em minha vida. Ofereceram chuveiro para que tomássemos banho. Completamente encardidos, preferimos não dar tal trabalho àquela gente tão sobre-humana e gentil. A cidade estava a três quilômetros dali, sucumbimos ao desafio a tão somente 3 mil metros do ponto final. Essa foi a grande vitória que obtivemos: fazer novos e bons amigos ao pé de todo aquele mapa árduo.

Agora tínhamos que ir ao centro de Muçum, a conhecida “Princesa das Pontes”. O apelido fazia muito sentido. Então a Senhora Brandão chamou seu filho, Marciano, e o cara realmente era de outro mundo! Porra, que sujeito gente boa! Ele prontamente ligou seu caminhonetão Ford F-4000, utilizado para transportar folhas de fumo, e afundou o pé na tábua. O jovem fez um tour pelos principais pontos da cidade, nos mostrou onde sairíamos se tivéssemos prosseguido com a trilha e depois nos largou na charmosa parada de ônibus local. Para nossa sorte, e uma hora ela teria que aparecer em bom número, um boteco bem de interior celebrou a quebra de mais uma jornada extrema. Finalmente pudemos encher a cara de cerveja gelada por umas três horas, antes de pegar o último ônibus de volta para Guaporé. O barista, Seu Zeca, ficou contente pelo consumo dos forasteiros.

No outro dia, rente à mesa do café da tarde, em Itajaí, reencontrei o Carnaval que deixara abandonado. Sentei. Escutei os prantos sensacionalistas do Datena. Levantei. Engoli o resto de pão no maior desgosto. Desliguei a merda da TV. Eu estava acabado. Moído de corpo. Rejuvenescido de alma. Mas já cansado da mente por estar de novo no habitat da paranoia moderna. Eu não aguentava mais aquele ritmo de morte, ganância, depressão, estupros, bandeiras sociais, lutas por direitos, e só direitos, gente vazia no Facebook, peitos e músculos explodindo no Instagram, culto ao nada, futebolistas superstars, e um emprego de merda às 8h da próxima manhã.

– Amigo, você sabe me dizer de onde parte o trem para a Estação Fim do Mundo?

Boa noite.

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