Ferrovia do Trigo, a novela. Capítulo 3

Os sobreviventes do apocalipse ferroviário

Marchávamos para as 5 horas da tarde no ritmo da panela, que balançava como pêndulo, pendurada na parte de trás da minha mochila. Regidos pelo atrito daquelas pedras miseráveis, e cozidos pela tirania do Rei Sol, decidimos vencer mais uma ponte vazada que nos cagaria para dentro de outro interminável túnel. Ao cometermos essa nova estupidez, deixamos para trás o último local adequado para montar acampamento, comer e descansar pensando no próximo dia. Nos fodemos!

O método de travessia permaneceu o mesmo. Concentração, dor de barriga e coração na boca, a uns 120 metros de pura altura e coragem à prova. Do outro lado, perto da boca do túnel, uma família ermitã, maltrapilha e composta por uma prole de crianças ranhentas, nos aguardava para a “bandeirada”. Eles sorriam sem os dentes e eu não entendia nada. Até que uma garota sacou seu celular e começou a bater fotos minhas. Descobri! Éramos modelos alienígenas. Eu, asqueroso como um político safado, logo tratei de esbanjar simpatia para acobertar meu mau humor crônico alastrado por toda aquela situação. Peguei um daqueles garotos no colo e posei para os flashes. Comecei a sentir que precisávamos de ajuda, então sorri bem amarelo hepatite. Anoitecia, tínhamos um buraco ermo na montanha para penetrar e nenhum lugar para fincar a porra da barraca.

– Desçam a trilha pra debaixo do viaduto, tem uma cascata lá que dá de acampar. – Disse uma daquelas matutas.

Quando ela deliciou a palavra cas-ca-ta, meu lapso de ingenuidade permitiu-me imaginar um complexo com piscinas simples – desses que têm nas zonas rurais das cidades. Delirei inclusive com uma garrafa de cerveja gelada pousando em minha mesa. Nem pensei nas gostosas de biquíni segurando suas tetas enormes para que não perdessem os sutiãs no deslizar de um tobogã. Estava completamente assexuado. Juro! Sem esperar ou pedir mais informações relevantes, invadi a trilha e, seguido por meus homens, fui à busca do meu oásis particular. Descemos. Descemos mais. E descemos mais um pouco. Quando percebi já estava aos pés daquele gigante de madeira e concreto cravado na mata. Estafados, caminhamos para o nada por quase uma hora, e nenhuma cachoeira desgraçada nos apareceu.

As primeiras criaturas da noite começavam a assanhar seus cantos. O sol sumira sem dizer adeus, e era vital que saíssemos dali. Mas antes sentamos à beira de um pequeno córrego de água boa e gelada. Afrouxei as botas e as amputei de meus pés, tirei as meias grudentas e mergulhei as pernas até as canelas ali. Sem dó, sem piedade. Gemi em êxtase pornô. Descobri uma nova forma de orgasmo. Uma nova categoria de sexo bizarro. Pés destruídos e água gelada. Continuei gemendo por uns cinco minutos, acasalei-me com a natureza e depois subi aquela picada de volta ao topo do viaduto.

A tardinha ficou cinza. Cortamos o túnel a passos mais ligeiros, era necessário derrubar o efeito das trevas que logo nos abocanharia. Fora dele, para nosso desespero, a rota do trem se estendia longa e estreita. Foi preciso acelerar a passada e esquecer a dor. Não havia acostamento. Andamos. Xingamos. Andamos mais. E na martelada da sentença chegamos a um cruzamento triplo. Três estradinhas de terra que se beijavam na linha das locomotivas. Naquela noite iríamos dormir à margem dos dormentes, no meio de uma daquelas ruas empoeiradas. Arrumamos uma pequena “ilha” de mato na abertura do “¥” desenhado pelo encontro das passagens de vagões e carros, trilhos e estradas que dariam lá, bem ao norte da puta que o pariu.

Acendemos uma fogueira, mas comemos bolachas. Um jipe com pescadores de rio passou. Olharam-nos com caras bestas e partiram sabe-se lá para onde. Éramos nós e o nada, nenhum mochileiro vadio naquele inferno ferroviário onde o Diabo era o maquinista. Apagamos o fogo e nos recolhemos à barraca. Deitamos. Não trocamos uma palavra naquela escuridão petróleo lunar. Os monstros da noite estavam fora de suas tocas uivando aos céus na sinfonia da selva. Tinha monstros em nossas cabeças também. Cansados e inquietos, enfim confessamos: estávamos preocupados. Enlatados como salsichas em um iglu no meio da rua, nossas mentes atordoadas temiam o atropelamento por um carro que trafegasse em alguma hora noturna daquele deserto. Apontamos duas lanternas ligadas em direção aos ângulos estratégicos, aquilo poderia nos salvar. Aí dormimos às 8 horas ao som melancólico de Eddie Vedder e sua poética Society. Uma bela trilha sonora para a ocasião.

Morremos por 5 longos segundos. Transformamo-nos em corpos trucidados dentro de uma embalagem de nylon azul. Fomos atropelados por uma grande caminhonete que voava baixo. Na manhã seguinte os urubus iriam duelar com raposas pelo sabor de nossas carniças. Isso tudo passou por meus olhos quando fui acordado aos gritos de terror, dopado pelo cansaço. A Terra nos despertou chacoalhando-se intensa e em gradual crescente, como se uma criatura subterrânea viesse para nos devorar. Uma luz amarela brilhava como um meteoro em chamas agigantando-se em nossa direção. E, por fim, o barulho ensurdecedor das jorradas de vapor e buzina de navio perfurava-nos os tímpanos. Era o fim? Não! “Só” o trem. O filho da puta de um trem, que não deu as caras durante 12 horas de caminhada, decidira o fazer enquanto dormíamos preocupados com uma colisão mortífera.

Eu roncava feito um porco no lado mais próximo ao mato, Reck no meio, e Götz na ponta para a rua. Assim que o desespero se instalou, meu instinto mandou puxar os amigos pra cima de mim. Entre o coral de pânico e todo aquele pandemônio, até ateus bradaram “meu deus” antes de morrerem abraçados. Puxei-os e arrastei-os o máximo que pude, rolando para o lado contrário à pista, deixando a tenda toda torta, em formato itálico. Estava construída a barraca de pisa, o novo marco turístico entre as cidadezinhas de Dois Lajeados e Muçum. Ela significaria a memória de três imbecis inconsequentes.

Passados os segundos de morte, coube a nós engolir o coração, desacelerar a respiração, apreciar a assustadora serpente de aço passar sobre os trilhos, rir e dialogar sobre a experiência, ver se alguém tinha visto a mão de Nossa Senhora, anjos pelados ou o velho barbudo.

Eu, acreditando estar madrugada adentro e louco para cantar com o galo, perguntei:

– Que horas são?

– 8 e 45. – Respondeu desanimado, Reck. Foram apenas 45 minutos de sono. As boas vindas tardias da companhia ferroviária aos “bravos” aventureiros.

Desacorçoado, deitei a cabeça, fixei o olhar nas duas lanternas ligadas para salvar nossa pele e pensei: “caralho, melhor se tivessem nos atropelado”. E aquela ainda seria uma das noites mais longas de nossas vidas.


Quer descobrir o que acontece no capítulo final dessa novela? Então clique aqui e confira o último episódio de “Ferrovia do Trigo, a novela”.

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