Ferrovia do Trigo, a novela. Capítulo 2

Se essa ponte não quebrar, olê, olê, olá…

Varamos a noite dirigindo por estradas horríveis, a maioria das zonas estavam fechadas. Já amanhecia quando o ronco do motor do meu carro descansou na praça em frente à Igreja de Guaporé. Um senhorzinho varria o chão público mantendo tudo em perfeita paz e ordem. Os confetes, as espumas e os foliões chapados não tinham dado as caras naquela cidade com charme de vila. Aproximei-me e perguntei onde passava o trem. Simplão, o velho me encarou feito um bode, por uns cinco segundos, antes de me responder: “aqui não tem trem nenhum”. Pensei: “puta merda!”. Como iria voltar depois de umas nove horas de viagem e dizer aos caras que me enganei, e que a tal ferrovia foi um delírio meu!? Pouco depois o varredor voltou atrás e corrigiu: “passa um trem ali pra baixo, mas é de carga, não de passageiro, tchê!”. Aliviado, agradeci, eram aqueles trilhos sofridos que eu procurava. Também acabara de perceber que não éramos pessoas muito normais pra encarar uma dessas.

Caminhamos um pouco até pular a cerca de arame farpado e chegar à, parcialmente abandonada e muito mal conservada, Estação Guaporé. Atingimos quase 500 metros acima do nível do mar, a neblina invadia nossas narinas como um nebulizador natural de aroma orvalho serrano. Ali começava uma caminhada de extremo perrengue e mau planejamento, calculada para ingênuos 30 quilômetros que viraram infernais 53. Percurso junto à serra, mato, precipícios ecoantes, túneis gigantescos e famílias ermitãs. Combinação de inconsequências que faria nossa comida acabar cedo, e principalmente a água, mas nós não fazíamos ideia do que aqueles trilhos encrostados em pedras nos reservavam. Nós não sabíamos de nada.

No começo, tudo festa. Nosso vigor físico ainda não estava afetado pela noite virada no asfalto. Se tivesse um carro alegórico ali, sambaríamos nos pedregulhos como mulatas de uma Sapucaí pós-guerra. Caminhávamos tranquilos fazendo fotos, conversando e apreciando a solidão e a pureza do verde. O primeiro dos 22 túneis nos engoliu. Entrar naquela imensidão negra sem fim era a fusão da diversão com a adrenalina da incerteza, o frio entre garganta, tórax e estômago, o novo, a questão perturbadora de mentes quietas: “que criaturas poderiam estar escondidas sob a proteção do breu? Violentas? Ariscas?”. Aí os longos vãos abertos nas montanhas de repente nos escarravam para a luz do sol que castigava no inaugurar do meio dia. Encontramos uma clareira. Era hora de fazer a fogueira, comer, cagar nos arbustos, descansar um pouco e seguir em frente.

À medida que o cansaço nocauteava nossas carcaças lentamente, o delírio era colateral. Quando achávamos estar sentindo o peso de 15 km caminhados, na verdade tínhamos deixado apenas dez para trás. E essa sensação terrorista só piorou até o final dramático daquela jornada às cegas. A dor tomava conta das costas com as mochilas que levavam os halteres das histórias a serem contadas. Os pés eram judiados pelas pedras, e aí pudemos entender todas as metáforas e provérbios sobre “caminhos e pedras”. Tudo doía demais, e o psicológico começava a dar seus primeiros berros dentro de um poço de agonia.

Nenhuma aventura é tão tragicômica que não possa piorar. Entre mais pontes e mais túneis, eis que surgia lá na frente uma das atrações principais da trilha. O temível, assassino e frio, “Mula Preta”. Um longo viaduto de madeira com cento e poucos metros de altura, curvo e sem parapeito. Ali, do alto daquela ponte gigantesca, me senti um dos garotos do clássico filme “Conta Comigo”. Fiquei em silêncio para checar a presença nada simpática de algum trem, só escutei grilos. Agachei-me, e como perito em encrenca, coloquei as mãos nos trilhos para sentir as vibrações: estavam mais calmos que as molas do colchão da minha avó. Eu não queria dar uma de velocista em cima daqueles rufos. Respirei fundo e parti de dez em dez minuciosos passos, como a bailarina do Cisne Negro sem collant, me equilibrando no emaranhado da mente. Era a corda bamba da respiração, da mochila, da câmera, do galão de água e do vento cortante que poderia me transformar em folha de outono, no caso de uma rajada um pouco mais forte.

Enquanto eu controlava minha vertigem, de asas abertas e nas pontas dos pés, parecendo o Daniel San do Karatê Kid, Reck estava dez metros atrás de mim, de quatro, com as mãos nos trilhos quentes e os joelhos nos dormentes de pau, meio travado, em choque. Götz disparou na frente tranquilo, fez fotos do desespero dos amigos, e logo descansou na “linha de chegada”. Eu não entendo como algumas pessoas são imunes ao sopro que a morte nos dá nas costas com a desgraçada da vertigem. Completei meu caminho tonteando. Senti aquela imensidão verde lá em baixo consumir meu cérebro através da visão periférica e das grossas frestas abertas no meu chão de madeira. Isso sem falar nos estalos horripilantes que as toras davam, aquele monstro que conectava os dois desfiladeiros parecia rebolar pra mim. Meu estômago virou do avesso, as pernas tremiam. A altura é um transtorno, parece que a qualquer momento Deus vai te dar um peteleco invisível e… Pluft, vem pro lado de cá, meu filho!


Quer descobrir o próximo capítulo dessa novela? Então clique aqui e confira o segundo episódio de “Ferrovia do Trigo, a novela”.

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