Ferrovia do Trigo, a novela. Capítulo 1

A fuga de um trem alegórico

– Em vinte minutos aí, vou fazer uma tatuagem, vem comigo. Tu podes até segurar a minha mão!

Estava com o Reck ao telefone. Era sábado e eu queria uma nova marca no meu corpo cansado da noite anterior. Ressaca braba. Almocei o que mal conseguia mastigar e fui em direção à casa do meu amigo, um alemãozinho beberrão com pouco mais de um metro e meio. Ele estava sem a mulher, então toparia o mundo naquele feriadão, principalmente pela promessa de segurar minha mão. Sempre vou a bons lugares.

Chegamos ao estúdio e o artista me pediu 400 paus por uma frase do Bukowski em minha pança. Eu tinha umas 250 pratas no bolso, o orçamento total para a tatuagem e a cana que iria tomar mais tarde. Pobre, desisti das agulhadas e decidi ficar só com os tragos. Percebi, aquele final de semana não me deixaria no estilo gangster. Entramos no carro e, sem norte, mais perdidos que brasileiros com bananas em punhos, fomos olhar umas bundas caídas na orla. Elas até que forçavam um rebolado fogoso, elas geralmente têm fogo no rabo. As ruas estavam cheias. Era a folia do Carnaval na Miami brasileira, a megalomaníaca Balneário Camboriú.

Só não havia sido acordado com uma lambida porque não era dono de um cão, e ainda que fosse, acho que ele teria nojo de me lamber. Aquilo foi o primeiro dia após a ancorada na mesa de um pub. Minhas narinas bufavam vapor vulcânico, mas ao invés de enxofre, a fragrância exalava cachaça, a cara estava vermelha, a pele oleosa e os poros dilatados. Longe de mim “ser um alcoólatra profissional”, é que uma de minhas viúvas loucas havia me deixado como o palhaço Arlequim naquela data. Mas nunca fui um maricas, e já que machos não choram, resolvi tudo enchendo a cara. Foda-se, em apenas um quarteirão daquele aglomerado de prédios formava-se uma multidão de mulheres pra todos os gostos, a maioria querendo parir no mês 11. As danadas que chamo de “mães de novembro”.

A ansiedade contemplava o tédio. Tentamos desviar do caminho das geladeiras, mas não houve jeito. Só teríamos a grande ideia, o acendimento do interruptor do mal, dando o gole contrariado na famigerada primeira cerveja do dia seguinte, o formato líquido da pílula que não aborta nada. Paramos em um posto. Cinco mangos por uma garrafinha naquela cidade que me dava nas bolas. Destampamos as belezuras e sentimos o toque de Midas em nossas papilas, o santo néctar escorrendo como véus de noivas pelas nossas traqueias sedentas, tocando nossos estômagos com todo frescor de direito. Tínhamos mais quatro dias de vadiagem e nada além de orgias em bailes de máscaras bregas pra fazer, inflar o ego de mulheres fúteis. Eu detestava aquele circo, precisava sair dali.

– Vamos pra Punta del Diablo. – Disse Reck.

No mesmo instante virei a chave na ignição e aceitei o desafio. “Vamos para o Uruguai!”, eu gritei. Mas ele, com humor nada masculino, recuou. Falou que era brincadeira e me deixou puto. O problema era dinheiro, eu ofereci um pouco emprestado, mas ainda assim ele não aceitou. Acho que ele tinha medo da namorada.

Bom, aquilo me deixou com formiga no cu. Eu precisava fazer algo extraordinário tanto quanto já precisava de outra cerveja. Pensei na Travessia Funicular, uma ferrovia desativada, de acesso proibido, no interior de São Paulo. Titubeei. Eu ainda não estava preparado, a atividade era mortal demais para um cara da minha idade que ainda tinha muito por fazer na vida. Mas ali que meu lado gênio foi cuspido da lâmpada, quando me lembrei da Travessia da Ferrovia do Trigo, no trecho entre Guaporé e Muçum, no interior do Rio Grande do Sul. Estava feita a programação, e só precisaríamos de mais um bom companheiro. Um maluco que comporia o trio que depois batizei de “Railroad Brothers”, os “Irmãos da Ferrovia”.

Pegamos nossos telefones e na hora, em meio ao trânsito, começamos a ligar para os amigos. Mateus: “ah, não posso, tenho um casamento pra ir com a minha mulher.”. Vander: “pô, não vai dar, tô em Porto Belo.”, e pelo tom cordeirinho da voz, era certo que tinha uma fêmea na jogada. Bruno: “trilha? Caminhar? Tô fora!”. Rad: “pô, até me encarno, mas agora tá muito em cima.”. Luqueta: “meu, cara, queria muito, mas tenho que trabalhar.”. Nossas opções se cessavam como o mel dentro das garrafas de Budweiser. Então abrimos o mapa e vimos que Campos Novos, no meio oeste de Santa Catarina, estava no caminho para o sonhado e repentino destino. Aí recorremos ao Götz, um capiau que estudou jornalismo comigo e levei pra Colômbia uma vez. Fizemos o convite com milhares de detalhes, informações completamente erradas e a resposta veio como um raio:

– É, rapazes, acho que minha mulher vai ter que assistir o Carnaval pela TV. Estou esperando vocês! – Sentenciou aquele bêbado do oeste.

Arrobustamos nossas cargueiras. Roubei talheres e uma panela da minha mãe. Compramos macarrão instantâneo, salsichas de lata, galões de água, umas barras de cereal e bolachas. Quem nos encontrou no supermercado naquele dia foi incapaz de entender o que estávamos fazendo. Tinha libertinagem no reino de Momo e nós, três marmanjos arruaceiros, indo para o mato juntinhos! Abastecemos o carro e rumamos aos rincões sulistas do Brasil. Nós sabíamos quase nada sobre a trilha ou o caminho, apenas que passaríamos por uns túneis e umas pontes bem altas. A única regra daquele Carnaval nada pagão era: em caso de trem, corram!


Quer descobrir o próximo capítulo dessa novela? Então clique aqui e confira o segundo episódio de “Ferrovia do Trigo, a novela”.

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