Como me tornei milionário

Sim, eu queria ser milionário. Mas sempre fui um escritor fodido, tinha a admiração apenas de amigos. Não carregava perspectivas de encantar o mundo. Sabe como é, palavras são até “bonitas”, mas só pro gasto; como putas baratas e, claro, bem pouco luxuosas. Cronistas, poetas, esses marginais da literatura são cheios de vícios. A gente enche a cara, se droga, deixa o amor nos estuprar, delira e vomita pela ponta do lápis. Eu precisava ser um milionário, estava obcecado. Então decidi mergulhar no jogo e arrisquei alto. No que chamam por aí de ato de coragem, apostei minha vida. Fiz uma fé, joguei à mesa como dados o único bem que possuía. De olhos fechados e cheio de planos, coloquei minha própria vida na roleta russa do destino. Era ela a minha única casa sem teto e paredes, estivesse eu debaixo de chuva ou cortado pelo vento. Eu, um selvagem educado para ser cidadão, agora precisava me deseducar, pois não era assim que iria me tornar magnata. Peguei a mochila e fui atrás do meu primeiro milhão.

Corajoso, eu? Não, covarde! Covarde e com orgulho. Corajoso eu era antes de sair do emprego, de mandar todo esse parasitário padrão social pra a puta que o pariu. Tem que ter muita coragem pra gastar uma vida inteira fazendo fortunas para um terceiro, e ainda agradecendo pela oportunidade sádica de ver o mundo girar pela janela. Eu era só mais um tentáculo desse monstro sanguessuga que chamamos de sistema. Acovardei-me e fugi. Nascemos selvagens, chorões, ensanguentados e pelados. Mas aos poucos nossa pureza animal vai sendo dilacerada por convenções que nos fazem caminhar como zumbis famintos. Isso entre horas perdidas com trabalho diário, o conto do espírito de equipe, da engrenagem e da marcha rumo ao sucesso da corporação, alimentando o sonho do longínquo “crescimento de todos”. Isso é justo a quem? Faz sentido? Fazem-nos acreditar que a terceira idade, a da aposentadoria e do suposto aproveitamento da vida, é a “melhor idade”. Por favor! Quando eu for velho irei precisar de alguém para limpar o meu rabo! Isso é quimioterapia conformista dada aos que já se arrumaram para o encontro com um “Deus”, numa outra vida, no “paraíso”. Puta merda!

Cansei de fazer o trabalho sujo. Aos 27 anos de idade eu já tinha me metido na podridão da política, e há pouco trabalhava como jornalista-publicitário em uma agência que mais parecia um birô de impressão sem impressoras. Peças estas que compunham as frustrações da minha existência. Havia cinco meses que meus salários baixos atrasavam. Eu estava há quase um ano escutando lorota de um superior sem formação na área, um aventureiro da selva de pedras, um sujeitinho coitado, vazio e enrolão. Eu não admitia estar cuspido naquela redoma estúpida que chamavam de vida, precisava rompê-la. Foi o que fiz. Decidi que ficaria 12 meses na empresa, pediria demissão, e embarcaria para onde meu dedo apontasse no mapa, onde eu pudesse sentir o pulso da Terra: Índia e Sudeste Asiático. Meu novo tipo de ambição? Ser milionário num dos cantos mais miseráveis do planeta.

A estratégia corria bem, eu fazia contagem regressiva, olhava para a cara do chefe e via uma cabeça de elefante, eu via Ganesh na minha frente. Aquele era o meu ópio de cada dia. Pra minha sorte acabei sendo demitido, antecipei meu encontro com Shiva e sua turma. O mundo, enfim, se tornara meu escritório. Mas tinha uma aura muito especial nisso tudo, algo que tiraria o peso somente das costas do sistema. Eu, um sujeito coletivista, que sempre dividiu tudo e sentia a falta de alguém até para ir conversando a caminho da padaria, decidira viajar sozinho. Tomei para mim que era hora de me perder daqui: do país, da cidade, das pessoas, da família, dos amigos, das mulheres e de todos que abusaram das doações que fiz de mim mesmo por todos esses anos. Precisava que eles me perdessem para que eu me encontrasse na solidão oriental. Eu simplesmente esvaziei meu olhar de ternura e fui sem dó. Fui fazer melhores amigos de uma vida inteira em apenas dois dias. Depois disso não os veria nunca mais, conheceria outros amarelos, índios, pretos ou brancos, e continuaria a deixá-los semeados pela estrada. Desse jeito animal, sem que tivéssemos tempo para descobrir nossos lados podres, a parte infértil dos corações humanos, fui aliviar minhas dores misantropas.

Minha trajetória até então não me deixaria mentir. Eu era um frustrado assumido. Estava no som da minha música, na desesperança da minha poesia e no ar revoltado dos meus gritos. Minha sinceridade forjou meu caráter, mas quem gosta da verdade? Pessoas adoram citações água com açúcar, conselhos baratos e textos genéricos. Gostam que pensem por elas e também dos sedativos horóscopos que se encaixam “coincidente e milagrosamente” no curso de suas meras sobrevivências. Manifestei meu horror à pobreza da vida padrão. A felicidade de um idiota me dava urticária. Nada mais me saciava: a bebida, os relacionamentos, e principalmente a mentira e o vazio dos discursos furados. Levava pouquíssimas pessoas a sério. Elas não mereciam. Eu tinha preguiça de todos com seus absolutismos de vidas medianas, suas incapacidades de mudar e de acreditar em metamorfoses do bem. A utopia é linda, mas acabamos esquartejando-a, entregando-a aos porcos.

Certo dia uma leitora veio até mim e perguntou:

– De onde você suga tanta inspiração?

Então eu respondi:

– Dos meus fracassos, me alimento deles.

Sobreviver aqui foi meu fracasso mais recente. Que o mundo esteja pronto para abraçar mais um fracassado postulante a milionário. Estou indo viver, indo me encontrar com a estrada e com a vida. Estou indo jogar na Índia, ela vai me deixar podre de rico.

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2 comentários sobre “Como me tornei milionário

  1. Ola,me chamo juliana e amei o seu texto ,voce leu todos os meus pensamentos, tambem tenho uma historia parecida,e agora estou prestes a ir mais longe ainda,quero me jogar no mundo ,viajando,e trabalhando para sobreviver,cansei dessa mesmice e da falsidade que me rodeia todos os dias

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