A família mais rica do mundo

No quarto quilômetro da Avenida Santa Lúcia, na parte de lá, onde o calçamento não vence o pó, há uma casa antiga e simples e de pintura morta. No terreno comprido, que não carece de muros, havia um velho galpão de madeira, hoje tem um sonho real: uma pequena agroindústria concretada de paredes branquíssimas. Lá a cana-de-açúcar vira melado nos gamelões de aço que ardem o rabo nas fornalhas. Ao largo daquela terra o galo canta para o seu harém de galinhas todos os dias, é a serenata matinal das 5 da manhã. Ali os porcos gordos grunhem e as vacas leiteiras espirram seu elixir de vida pra dentro do balde de alumínio ao massagear de suas tetas veiúdas. Há mandioca. Alface. Tomate. Vagem. Pepino que vira conserva. Banana. Limão. E variedades vegetais e frutíferas suficientes para abastecer qualquer supermercado de médio porte. Tudo que uma família precisa para si e seus queridos amigos.

Eu tenho um amigo lá em Muçum. Onde o Judas foi cavalgar e se perdeu com botas, cavalo e tudo, na linha que leva aos gigantescos viadutos que deslizam vagões de trem. Lá no quarto quilômetro da Avenida Santa Lúcia moram os Brandão. A raça pura do campo, a família do meu amigo Marciano. É, só podia ser gente de outro mundo mesmo. Chegar até lá é fácil, basta ter um bom coração. Dizem, gente do bem atrai gente do bem. Então é só aquecer o coração, cruzar a rodovia e ir. Vá indo reto, “toda a vida reto” até a estrada ficar lazarenta, até o verde ficar mais verde, até o humano ficar mais humano. Aí você desliga o ar condicionado do carro e respira o ar do paraíso naquela colônia ermitã. Abre a janela e começa a distribuir acenos de bom dia, boa tarde ou boa noite, pras almas daquela comunidade reunida nas varandas para um mate amargo, uma boa prosa ou para só ver o movimento tímido passar por suas janelas na companhia dos grilos e das estrelas. – Não se esqueça, forasteiro, é preciso lançar sorrisos e cumprimentos ao longo da peregrinação.

Sábado sim, sábado não, Marciano roça a grama verde no entorno da casa e de sua agroindústria do melado. Sua irmã se casou e foi para a cidade grande. Agora ele vive com os pais e tem uma namorada. Há um ano o trem me atropelou dos trilhos que passam acima de seu terreno e me fez rolar lavoura abaixo. Tive a sorte de bater com a cara na porta dos Brandão. Eu estava sujo, caía uma chuva dos diabos. Eles me deram água gelada e pipoca doce. Hoje de manhã eu acordei em minha barraca fincada em seu quintal e senti o cheiro do café saindo do bule, e das lascas de polenta fumegando na chapa do fogão à lenha. Comi queijo de colono com melado e polenta, e broas e pão caseiro e o gosto daquela terra. Mamei da vaca em uma caneca. Era o ápice.

No almoço de domingo o churrasco estava na mesa. Partes carneadas de uma vaquinha que ficou na engorda e que agora nos alimentava com suculentos e macios cortes. Tomamos cerveja. Muita cerveja. Como se nos víssemos todos os dias. Como se fossemos vizinhos de varanda campeira. Como se o chimarrão fosse um ritual de agendamento dispensável aos pores do sol ferrugem de um céu quase sem nuvens. Estar na companhia daquela gente nobre transformava minha estirpe. Falávamos errado, carregávamos o sotaque e ríamos deliberadamente das histórias exageradas que o meio do mato inventa. Gozamos de inocência, coexistimos em amor. Eu estava na companhia de seres supremos. Seres desprendidos da sociedade. Habitava ali um modo de vida que os tornou inigualáveis. Autossuficientes. Marciano e a família Brandão venceram o sistema. Seu tudo vinha do solo da Terra. Tudo! Eles nunca iam ao supermercado. E quem precisa comprar algo? E quem precisa ir ao supermercado quando se consegue dar amor a completos estranhos?

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